Muitas experiências intrigantes que as pessoas têm no dia-a-dia são tidas como algo do além e acabam servindo como um dos pilares para a crença em divindades.

Crêem mesmo que foi deus[bb] ou qualquer outra coisa que deu um sinal e falou com elas.

Alguns crêem que foi Jeová, outros Jesus, espíritos, fadas, gnomos, duendes, Mitra, Horus, Afrodite, Zeus, etc. Quem será que realmente falou com a pessoa? Aliás, alguém falou?

Uma mesma experiência, para um pode significar o deus teísta falando, para outro uma tartaruga cósmica voadora codificando uma mensagem.

Este é o agravante: interpretam os eventos e adaptam sua memória para se encaixarem no padrão de suas crenças e expectativas.

Não conseguem aceitar o universo com seus mistérios.

Se pegarmos as experiências das pessoas de várias crenças, e por algum momento, dar crédito à sua conclusão, como saber qual crença está certa?

Caso eu acredite que existam super bananas galáticas carameladas, e sempre que alguém cite a palavra banana signifique que elas estão falando comigo, seria aceitável dizer que isto confirma a existência delas e demonstrem seu poder de cascas celestiais?

Ou, de repente, uma pessoa me diz algum dia que o elevador vai cair por 3 andares até chegar ao chão. No outro dia isto acontece. Ohhh! Realmente, que coincidência! Puta cagão o cara que disse isto.

Foi mensagem do além? As bananas, em assembléia com todo o cacho santíssimo, resolveram me avisar? Este evento prova a existência delas?

É fácil perceber que os acontecimentos tidos como experiências com o divino servem para tentar confortar e confirmar a crença da pessoa.

Para muita gente é difícil pensar que não existe ninguém zelando por nós, que o universo não conspira a favor e nem contra ninguém, que não há um propósito para as coisas.

Alguns casos são meras coincidências, outros, eventos aparentemente ou momentaneamente não explicados pela ciência. É claro que eu também me surpreendo com algumas coisas, e o universo me causa grande curiosidade e admiração.

A pessoa crente em algum ser-que-fala-coisas-com-ela para ter um avançado e muito utilizado sistema de filtragem na memória. O tal ser fala com ela 100 vezes através de algumas pessoas. Noventa e nove mensagens não se concretizam. A pessoa simplesmente ignora todas elas, afirmando que foi erro da pessoa que entregou a mensagem, e esquece-se delas. Se foi ela mesmo que ouviu a voz-do-além então provavelmente naqueles momentos específicos foram alucinações devido ao stress.

Uma das ‘revelações’ que se concretizou foi adaptada e lembrada no formato que atenda a expectativa da crença, e tida como prova irrefutável de um ser do além se comunicando.

Mas pera lá! E se eu pegar as 99 que não aconteceram para, de forma inversa, ‘provar’ que tal ser não existe? E ainda pegar a única que bateu e mostrar que pode ser resultado de coincidência ou explicar que é um evento possível de acontecer e que podemos obter informações sobre isto na ciência? Aceitariam? Claro que não. As alegações só funcionam para o lado deles.

Algumas pessoas estão tão afundadas em suas crenças que já não conseguem ver a diferença entre ter uma experiência curiosa e afirmar que um ser invisível existe.

Eu mesmo posso falar 200 coisas para várias pessoas. Várias não se realizarão, algumas poderão se concretizar em partes e raríssimas acontecerão parecendo que por completo, já que a memória das pessoas poderão me ajudar nisto, manipulando as informações processadas. Será que vendo que a maioria das coisas que falei não aconteceram, não seria prova de que eu não tenho o real conhecimento do futuro, e que talvez utilizei-me de probabilidades ou simples chutes?

Ou, será que, ao contrário, as raras coisas que pareceram acontecer provam que sou onisciente?

A memória é um mecanismo surpreendente e tem a capacidade de trair a veracidade dos fatos.

O mundo sem dúvida alguma é misterioso e cheio de incógnitas, mas isto não comprova a existência de um mundo invisível cheio de seres divinos.