Discípulo da razão é um blog para falar sobre a vida e sua falta de sentido. Sem rodeio. Sem frescura.
Sonhos e expectativas
Conversando com uma pessoa fui indagado com a seguinte questão:
“vc vive por viver? sem sonhos…sem expectativas?”
A pergunta foi superficialmente respondida quando fui questionado, mas tentarei explorá-la um pouco mais aqui.
Uma breve reflexão
Os sonhos das pessoas estão normalmente ligados a mudanças de vida que, ilusioriamente, proporcionarão satisfação plena. Mas quando um se concretiza outro já lhe vem à mente para tentar tapar o buraco da falta de sentido e mantê-las em atividade sempre atrás de algo.
O problema de enganar-se e ficar em busca de algo que mudará para sempre nossa condição dolorosa de viver, é subestimar os momentos do presente ao ponto de não perceber um instante que nos livre do tédio e nos dê prazer. Pensam tanto no futuro que o presente passa a valer menos do que já vale.
Após viver um momento que nem teve muita importância e passado muitos anos, olha-se para ele e pensa: “Como eu era feliz e nem sabia”. Conseguimos nos enganar ao ponto de sempre achar que foi melhor do que realmente foi e melhor do que hoje.
E quando olha-se para o futuro, pensa-se: “Ainda vou ser feliz”, ou ainda mais específico: “quando eu conseguir me aposentar e comprar a casa na praia, aí sim vou desfrutar da vida”.
Depois de aposentado e na rede da casa de praia, olha para trás e pensa: “já estou velho, devia ter aproveitado melhor minha juventude”.
Sempre olham em outras direções, nunca para o aqui e o agora. Olham para trás e a memória recria momentos mais saborosos do que foram. Olham para frente e imaginam momentos surreais. Olham para os lados e apressadamente deduzem que beltrano ou sicrano são felizes.
Tal felicidade está sempre onde não estamos.

Respondendo a pergunta
Vivo por viver, sem grandes ambições.
Me afasto da busca louca que muitos fazem atrás desta felicidade: como se de repente a vida mudasse e tudo ficasse colorido, bonitinho, satisfatório e prazeroso para sempre. Um fantasma que criaram para poder correrem atrás a vida inteira, nunca vendo-o e nem encontrando-o. Um esforço a mais sem qualquer recompensa.
Anseio coisas, porém tento manter ideias que podem ser realizadas em breve e com boa probabilidade, procurando deixar o resto em segundo plano.
Coisas que aplico no presente evitam preocupações que poderiam surgir sobre o futuro:
- Sustentação: evito financiamentos; tento pagar sempre com o que tenho ou em curto prazo.
- Saúde: busco manter a saúde, o necessário para conseguir evitar boa parte dos sofrimentos, sejam físicos ou psicológicos.
Sabendo que o mundo é cinza, não tento colori-lo e fantasiá-lo. Apenas busco aceitá-lo como cinza e tirar proveito disto.
O prazer obtido por algo esperado é fugaz. Assim que satisfazemos um desejo ou necessidade, o brilho daquilo passa, e o tédio nos faz a enxergar novamente a dor de viver. A sensação de euforia se perde num piscar de olhos e logo a realidade é escancarada em nossa cara. Por isto procuro aproveitar o momento enquanto dura sem esperar nada além disto.
Acordar e dormir em função de sonhos, de algo que pensamos que possa acontecer, só nos leva para longe do presente, como sonâmbulos, tomando atitudes sem consciência do momento.
A saída para suportar a vida é encontrar passatempos.
Se buscarmos o desapego total das coisas, o tédio nos esmaga, e a morte pode ser a melhor companhia.
Faço piada com este jogo sujo em que estamos metidos. Não tento me enganar e acreditar que ele seja outra coisa, com regras e premiações valiosas. Não espero nada em troca. O jogo está acontecendo, e não há qualquer árbitro preocupado com os pinos que se movem sobre o tabuleiro. Somos peões, andando de casa em casa, em direção à extinção.
Na maioria das vezes me divirto, dou risada, acho graça desta falta de sentido. Enquanto conseguir encarar assim, melhor pra mim.
No fundo não há muita escolha em como viver, cada um foi “programado” de um jeito.
A realidade está aí, sem firulas ou camaradagem, pouco se lixando para nós.


28 de outubro de 2009 - 2:46 pm
Gostei do post.
Curioso que, quem ler desatentamente poderá achar que se trata de uma visão pessimista da vida. Não é. É apenas uma constatação.
Por outro lado. Eu entendo hoje que a vida é o que fazemos dela. Ou melhor, a vida é boa ou ruim o quanto queremos que ela seja. Felicidade não é algo que se conquista, pois não está fora de nós.
Felicidade é simplesmente uma atitude.
Infelizmente temos a tendência de sujeitar a felicidade naquilo que está fora de nós: Dinheiro, saúde, paz, bens materiais. Quando o ditado diz que dinheiro não trás felicidade, está correto, porém está incompleto. Nada trás felicidade. Repito: Felicidade não se alcança nem se conquista, apenas se assume.
Talvez por isso seja difícil ser feliz, afinal como algo tão bom pode ser tão simples? E assim caminhamos descrentes do que existe dentro de nós e buscando fora de nós o que não existe. E assim a felicidade só dura até abrirmos a embalagem.
28 de outubro de 2009 - 3:52 pm
Tarik,
É complicado apenas querer, e puft! Imagine um deficiente visual e auditivo, sem os dois braços, que vive na rua, sem condições financeiras para ter um canto próprio onde possa dormir. Ele pode querer que a vida seja boa, mas é complicado diante de tais condições.
Faltou uma prévia definição do que é felicidade para a sua conclusão de que ela existe e apenas se assume, não se conquista.
28 de outubro de 2009 - 8:46 pm
Não é apenas querer. Como eu disse, requer uma atitude, uma mudança de postura diante da vida.
Você diz que é difícil para uma pessoa cheia de limitações físicas e materiais ser feliz. Mas é mais difícil para ele do que para qualquer outro?
Não é esse mesmo o âmago do seu post? Não importa a nossa situação, sempre queremos algo mais? De acordo com o que você disse, e eu concordo, se essa pessoa tivesse perfeita saúde e um canto para dormir, mesmo assim seria infeliz. Pois não é saúde nem um teto que proporciona a felicidade.
Quanto à definição de felicidade, uso a do dicionário.
28 de outubro de 2009 - 9:21 pm
Sim. Não é apenas querer, nem apenas outra coisa.
Apesar de todos estarmos no mesmo barco quanto mais limitações físicas e financeiras, mais difícil é encontrar algum prazer em viver. O exemplo era drástico justamente para poder mostrar de maneira mais clara.
O uso do dicionário neste assunto não acescenta muito.
Se o que você pensa sobre o conceito tem relação com bem-estar pleno, ele é ilusório.