Quando eu ainda era cristão, estudava a bíblia
sem parar. Buscava os assuntos à fundo, debatia com inúmeros outros teólogos de vários lugares do Brasil, pesquisando até mesmo os termos e o sentido das palavras no original da linguagem bíblica. Entendo como ‘teólogo’, um cristão que estuda a bíblia a sério, seja ele católico, protestante, judeu ortodoxo ou messiânico, etc, e não apenas uma pessoa com formação acadêmica.
Eu me interessava muito por assuntos que são a base do cristianismo: Jesus, alma, espírito, céu, inferno, demônios, anjos, a volta de Jesus, o fim do mundo, os atributos ONI de Deus, etc.
Escatologia foi um assunto que foquei por um bom tempo. No meio em que vivia, o pré-tribulacionismo era ensinado. Porém depois de vários estudos, adotei o pós-tribulacionismo como a linha de raciocínio mais coerente. Cheguei a entender também que grande parte do apocalipse já tinha acontecido. Mesmo ainda cristão, chegava a brincar com outros amigos estudiosos que João devia utilizar alucinógenos para ter tantas ‘viagens’.
Me dediquei também a estudar a possível deidade de Jesus. Entre as pessoas que eu convivia, Jesus era tido como Deus, e até então eu tinha aceitado isto. Com o tempo e muito estudo, concluí que Jesus era apenas filho de Deus e não era divino. Foi o que considerei mais coerente com a bíblia diante de tantas contradições que ela oferece. Ou Jesus sofria como humano e conversava com outra pessoa, seu pai, ou ele fazia um teatro sem graça, fingindo sofrer, pois deus
não sofre de acordo com a maioria das pessoas, e fingindo conversar com outra pessoa que no fundo era ele mesmo, deus. Talvez tenha ficado perturbado e começou a ter amigos imaginários.
Estudei sobre o que seria alma e espírito. Acreditava na tricotomia, depois quase na dicotomia, mas depois de estudar o assunto à fundo, adotei a visão holística. O ser humano é um ser por inteiro sem divisões. Sem corpo não há alma. Assim, entendia que quando Jesus voltasse, as pessoas ressuscitariam em novos corpos e por isto tornariam a viver. Não aceitava que a alma ou espírito fosse um ser com personalidade própria. Não cria neste ’ser’ incorpóreo e consciente dentro de nós. Cria que éramos a soma de tudo e nossa consciência estava em nosso cérebro.
Céu, no início, pra mim era algo paradisíaco, suspenso nas alturas, com m ouro, anjos voando, etc. Depois considerei a idéia de ser um reino terreno, com o mundo refeito, organizado por Jesus.
Inferno, e sofrimento eterno, também deixaram de fazer parte de minhas crenças, e não passavam de alegorias e um meio, utilizado em pregações, de mal gosto para amedrontar as pessoas e fazê-las crer em Jesus.
Entendia que a morte era o fim para todos, porém quem tinha morrido crendo e seguido a Jesus, seria ressuscitado para viver em seu reino, os outros permaneceriam ‘dormindo’. Inferno, lago de fogo, cheiro de enxofre, eram apenas alegorias.
Com isto, demônios, diabo
, satanás e qualquer outro ser deste tipo, não passavam de seres do escalão de bicho papão e mulher de algodão, ou seja, inexistentes.
Os atributos ONI de Deus, me deixavam confusos: onipotência, onisciência e onipresença. Como ser onipotente e onisciente ao mesmo tempo? Ele podia mudar algo que já tinha conhecimento prévio? Este tipo de debate sempre houve entre teólogos. Já tinha lido várias interpretações mas nenhuma havia conseguido tampar todos os buracos. É óbvio.
O debate entre arminianos e calvinistas, sobre os assuntos que envolviam a TULIP eram intermináveis.
E assim foi com vários assuntos. Lembrando que ainda me mantinha cristão, porém com idéias diferentes da massa cristã em geral.
É bem verdade que encontrei algumas similaridades entre meu modo de pensar e algumas duas religiões que pude saber na época. Uma linha doutrinária da igreja adventista (não sei se era a linha mais comum ou alguma outra) e, um grupo, os cristadelfianos, que possuíam doutrinas um tanto diferentes do que podemos perceber nas grandes igrejas evangélicas.
Como já não tinha empatia por religiões e não achava nem um pouco necessário para minha vida cristã, não passou de uma simples curiosidade saber o que outros grupos pensavam.
Não posso esquecer de falar, da parte principal: desde que comecei a estudar a bíblia de forma exaustiva, comecei a perceber muitos erros de traduções e também erros lógicos, muitas contradições, muitas atrocidades e atitudes que não dava pra entender e aceitar. Ao ir estudando os assuntos percebia cada vez mais que a bíblia era um prato cheio para se interpretar o que quisesse da forma que quisesse.
Em paralelo aos estudos de assuntos bíblicos, comecei uma análise crítica sobre a própria bíblia, a origem e história da religião cristã, etc. Já não conseguia aceitar a bíblia como “Palavra de Deus”.
Daí em diante foi um pulo para eu tomar as rédias da minha própria vida e me dar a real oportunidade de refletir e concluir sobre os assuntos sem medo e sem dogmas. Tirei a venda de meus olhos. Deixei-me ver as coisas como eram. E aí, tudo foi acontecendo…