Mudança de vida

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O ateísmo proporcionou muitas mudanças em minha vida. Na verdade, a religião me prendia e não permitia eu avançar, crescer e amadurecer. Era minha própria prisão. Quando me libertei dela, pude começar a repensar todos os conceitos que eu tinha até então e tirar minhas próprias conclusões. Não tenho como descrever esta sensação maravilhosa de liberdade, é algo explêndido. Me senti verdadeiramente vivo.

Foi o início de um processo glorioso que continua em andamento durante todos os dias de minha vida. A todo momento observo, reflito e tiro conclusões sobre as coisas ao meu redor, sem medo de estar infringindo alguma regra celestial ou de ser criticado por alguém. Quando participava de igreja, tinha que tomar cuidado para não desobedecer doutrinas e nem mandamentos de pessoas com poderes eclesiásticos, senão eu poderia perder funções que eu tinha adquirido ou ficar mal falado. Aliás, estas duas coisas aconteceram.

Minha mudança na forma de pensar foi algo que eu não podia segurar, algo natural, e que me proporcionava uma alegria imensa.

Antes eu ouvia muito dizer sobre alegria e liberdade, mas fui descobrir por mim mesmo, sentindo o verdadeiro gosto, depois que me desliguei da religião.

Na verdade, as mudanças começaram a brotar antes mesmo do ateísmo, e elas me levaram à descrença. Por fim, a descrença, e a perda do medo de algum ser me cobrar por eu pensar de forma independente, me levaram a outras mudanças.

Poderia classificar essas mudanças pelos momentos em que apareceram. No estágio pré-ateísmo, foram mudanças na forma de pensar em relação à doutrinas bíblicas, religião e divindades. As mudanças pós-ateísmo, foram mudanças na forma de viver e pensar sobre o mundo.

Não sou muito fã de tentar me definir por simples conceitos, já que sou um ser dinâmico e complexo. Definições são falhas e limitam, mas para tentar expressar de forma resumida um pouco mais sobre mim, tentarei citar alguns conceitos que contêm parte de minha idéias, não fazendo qualquer esforço para me engessar neles e nem esperando que expressem totalmente o que verdadeiramente sou:

Ateísta, anarquista, hedonista, agnóstico e liberal.

Sistema de ameaças

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Conversando com um amigo meu de infância, perguntei-lhe se um colega, que temos em comum, voltou a frequentar a igreja, pois eu tinha ouvido alguém comentar e por curiosidade quis confirmar. Este colega era um desviado. É assim que são chamados os ex-membros de igrejas. Meu amigo confirmou e aproveitando mandou logo a pergunta: E você quando vai voltar? Respondi: Nunca.

Sei que a palavra nunca é algo forte e traz um peso sobre um instante que não conhecemos. Não gosto de usá-la quando se trata de futuro e nem vejo sentido, mas apesar de igreja ser algo fora de cogitação, na verdade dei esta resposta pois sabia que não adiantaria tentar agradar com outras respostas e correr o risco de dar esperanças, pois se desse margem, ele poderia começar com uma mini-pregação para ex-convertidos, tentando resgatar a alma do pobre pecador aqui. Como eu não tava com vontade de ouvir nada a respeito, tentei me esquivar, demostrando objetividade.

Foi daí que surgiu um clichê, que até tinha me esquecido, muito utilizado por crentes: Rapaz, se não vier por amor, vai vir pela dor.

Fico pensando, nossa! que convite-reflexão mais bondoso, hein?
Sempre na base da ameaça para as pessoas se manterem submissas aos dogmas e vontade de seus senhores.

Oh fulano, se você não aceitar a Jesus, você vai pro inferno e vai sofrer eternamente. Oh beltrano, o diabo[bb] está rondando a sua vida e vai acabar com ela se você não se arrepender de seus pecados[bb] e seguir a Jesus. Sicrano! Se você não voltar ao caminho do Senhor por amor, você voltará pela dor. Talvez um acidente, ou um filho doente, ou a morte de algum parente. Seja lá o que for, deus[bb] não vai ter escolha. Quando você estiver em pranto, e passando os piores momentos da sua vida, vai se lembrar de deus e que ele está te chamando.

Me admiro: que deus bondoso, hein!?, cara bacana!, mas mantenha-o longe de mim. Como o cara pode acabar com a vida de alguém mas não pode chegar pra conversar numa boa antes disto?

Pra quem acredita nestas histórias, talvez fique com medo mesmo e acabe se sentindo inseguro, com medo, e volte pra igreja por causa disto.

Alguns religiosos, devem se sentir superiores, olhar para mim e ter pena. Coitado do Renato, gosto tanto dele, mas vai pro inferno arder no mármore. Ah! Mas no fundo ele fez por merecer. Saiu da igreja e nem liga mais pra isto, que pecado!

E vocês não sabem da maior: a maioria de meus amigos nem sabem que vivo minha vida sem qualquer crença e submissão a divindades. Isto seria logo motivo para me despacharem no mesmo momento para o lago de enxofre.

O sistema de ameaças é um dos grandes métodos para manterem pessoas arrebanhadas e submissas dentro de igrejas, outro é a promessa de prêmios fantasiosos no além-túmulo.

Experiências com o além

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Muitas experiências intrigantes que as pessoas têm no dia-a-dia são tidas como algo do além e acabam servindo como um dos pilares para a crença em divindades.

Crêem mesmo que foi deus[bb] ou qualquer outra coisa que deu um sinal e falou com elas.

Alguns crêem que foi Jeová, outros Jesus, espíritos, fadas, gnomos, duendes, Mitra, Horus, Afrodite, Zeus, etc. Quem será que realmente falou com a pessoa? Aliás, alguém falou?

Uma mesma experiência, para um pode significar o deus teísta falando, para outro uma tartaruga cósmica voadora codificando uma mensagem.

Este é o agravante: interpretam os eventos e adaptam sua memória para se encaixarem no padrão de suas crenças e expectativas.

Não conseguem aceitar o universo com seus mistérios.

Se pegarmos as experiências das pessoas de várias crenças, e por algum momento, dar crédito à sua conclusão, como saber qual crença está certa?

Caso eu acredite que existam super bananas galáticas carameladas, e sempre que alguém cite a palavra banana signifique que elas estão falando comigo, seria aceitável dizer que isto confirma a existência delas e demonstrem seu poder de cascas celestiais?

Ou, de repente, uma pessoa me diz algum dia que o elevador vai cair por 3 andares até chegar ao chão. No outro dia isto acontece. Ohhh! Realmente, que coincidência! Puta cagão o cara que disse isto.

Foi mensagem do além? As bananas, em assembléia com todo o cacho santíssimo, resolveram me avisar? Este evento prova a existência delas?

É fácil perceber que os acontecimentos tidos como experiências com o divino servem para tentar confortar e confirmar a crença da pessoa.

Para muita gente é difícil pensar que não existe ninguém zelando por nós, que o universo não conspira a favor e nem contra ninguém, que não há um propósito para as coisas.

Alguns casos são meras coincidências, outros, eventos aparentemente ou momentaneamente não explicados pela ciência. É claro que eu também me surpreendo com algumas coisas, e o universo me causa grande curiosidade e admiração.

A pessoa crente em algum ser-que-fala-coisas-com-ela para ter um avançado e muito utilizado sistema de filtragem na memória. O tal ser fala com ela 100 vezes através de algumas pessoas. Noventa e nove mensagens não se concretizam. A pessoa simplesmente ignora todas elas, afirmando que foi erro da pessoa que entregou a mensagem, e esquece-se delas. Se foi ela mesmo que ouviu a voz-do-além então provavelmente naqueles momentos específicos foram alucinações devido ao stress.

Uma das ‘revelações’ que se concretizou foi adaptada e lembrada no formato que atenda a expectativa da crença, e tida como prova irrefutável de um ser do além se comunicando.

Mas pera lá! E se eu pegar as 99 que não aconteceram para, de forma inversa, ‘provar’ que tal ser não existe? E ainda pegar a única que bateu e mostrar que pode ser resultado de coincidência ou explicar que é um evento possível de acontecer e que podemos obter informações sobre isto na ciência? Aceitariam? Claro que não. As alegações só funcionam para o lado deles.

Algumas pessoas estão tão afundadas em suas crenças que já não conseguem ver a diferença entre ter uma experiência curiosa e afirmar que um ser invisível existe.

Eu mesmo posso falar 200 coisas para várias pessoas. Várias não se realizarão, algumas poderão se concretizar em partes e raríssimas acontecerão parecendo que por completo, já que a memória das pessoas poderão me ajudar nisto, manipulando as informações processadas. Será que vendo que a maioria das coisas que falei não aconteceram, não seria prova de que eu não tenho o real conhecimento do futuro, e que talvez utilizei-me de probabilidades ou simples chutes?

Ou, será que, ao contrário, as raras coisas que pareceram acontecer provam que sou onisciente?

A memória é um mecanismo surpreendente e tem a capacidade de trair a veracidade dos fatos.

O mundo sem dúvida alguma é misterioso e cheio de incógnitas, mas isto não comprova a existência de um mundo invisível cheio de seres divinos.

Doutrinas cristãs

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Quando eu ainda era cristão, estudava a bíblia[bb] sem parar. Buscava os assuntos à fundo, debatia com inúmeros outros teólogos de vários lugares do Brasil, pesquisando até mesmo os termos e o sentido das palavras no original da linguagem bíblica. Entendo como ‘teólogo’, um cristão que estuda a bíblia a sério, seja ele católico, protestante, judeu ortodoxo ou messiânico, etc, e não apenas uma pessoa com formação acadêmica.

Eu me interessava muito por assuntos que são a base do cristianismo: Jesus, alma, espírito, céu, inferno, demônios, anjos, a volta de Jesus, o fim do mundo, os atributos ONI de Deus, etc.

Escatologia foi um assunto que foquei por um bom tempo. No meio em que vivia, o pré-tribulacionismo era ensinado. Porém depois de vários estudos, adotei o pós-tribulacionismo como a linha de raciocínio mais coerente. Cheguei a entender também que grande parte do apocalipse já tinha acontecido. Mesmo ainda cristão, chegava a brincar com outros amigos estudiosos que João devia utilizar alucinógenos para ter tantas ‘viagens’.

Me dediquei também a estudar a possível deidade de Jesus. Entre as pessoas que eu convivia, Jesus era tido como Deus, e até então eu tinha aceitado isto. Com o tempo e muito estudo, concluí que Jesus era apenas filho de Deus e não era divino. Foi o que considerei mais coerente com a bíblia diante de tantas contradições que ela oferece. Ou Jesus sofria como humano e conversava com outra pessoa, seu pai, ou ele fazia um teatro sem graça, fingindo sofrer, pois deus[bb] não sofre de acordo com a maioria das pessoas, e fingindo conversar com outra pessoa que no fundo era ele mesmo, deus. Talvez tenha ficado perturbado e começou a ter amigos imaginários.

Estudei sobre o que seria alma e espírito. Acreditava na tricotomia, depois quase na dicotomia, mas depois de estudar o assunto à fundo, adotei a visão holística. O ser humano é um ser por inteiro sem divisões. Sem corpo não há alma. Assim, entendia que quando Jesus voltasse, as pessoas ressuscitariam em novos corpos e por isto tornariam a viver. Não aceitava que a alma ou espírito fosse um ser com personalidade própria. Não cria neste ’ser’ incorpóreo e consciente dentro de nós. Cria que éramos a soma de tudo e nossa consciência estava em nosso cérebro.

Céu, no início, pra mim era algo paradisíaco, suspenso nas alturas, com m ouro, anjos voando, etc. Depois considerei a idéia de ser um reino terreno, com o mundo refeito, organizado por Jesus.

Inferno, e sofrimento eterno, também deixaram de fazer parte de minhas crenças, e não passavam de alegorias e um meio, utilizado em pregações, de mal gosto para amedrontar as pessoas e fazê-las crer em Jesus.
Entendia que a morte era o fim para todos, porém quem tinha morrido crendo e seguido a Jesus, seria ressuscitado para viver em seu reino, os outros permaneceriam ‘dormindo’. Inferno, lago de fogo, cheiro de enxofre, eram apenas alegorias.

Com isto, demônios, diabo[bb], satanás e qualquer outro ser deste tipo, não passavam de seres do escalão de bicho papão e mulher de algodão, ou seja, inexistentes.

Os atributos ONI de Deus, me deixavam confusos: onipotência, onisciência e onipresença. Como ser onipotente e onisciente ao mesmo tempo? Ele podia mudar algo que já tinha conhecimento prévio? Este tipo de debate sempre houve entre teólogos. Já tinha lido várias interpretações mas nenhuma havia conseguido tampar todos os buracos. É óbvio.

O debate entre arminianos e calvinistas, sobre os assuntos que envolviam a TULIP eram intermináveis.

E assim foi com vários assuntos. Lembrando que ainda me mantinha cristão, porém com idéias diferentes da massa cristã em geral.

É bem verdade que encontrei algumas similaridades entre meu modo de pensar e algumas duas religiões que pude saber na época. Uma linha doutrinária da igreja adventista (não sei se era a linha mais comum ou alguma outra) e, um grupo, os cristadelfianos, que possuíam doutrinas um tanto diferentes do que podemos perceber nas grandes igrejas evangélicas.

Como já não tinha empatia por religiões e não achava nem um pouco necessário para minha vida cristã, não passou de uma simples curiosidade saber o que outros grupos pensavam.

Não posso esquecer de falar, da parte principal: desde que comecei a estudar a bíblia de forma exaustiva, comecei a perceber muitos erros de traduções e também erros lógicos, muitas contradições, muitas atrocidades e atitudes que não dava pra entender e aceitar. Ao ir estudando os assuntos percebia cada vez mais que a bíblia era um prato cheio para se interpretar o que quisesse da forma que quisesse.

Em paralelo aos estudos de assuntos bíblicos, comecei uma análise crítica sobre a própria bíblia, a origem e história da religião cristã, etc. Já não conseguia aceitar a bíblia como “Palavra de Deus”.

Daí em diante foi um pulo para eu tomar as rédias da minha própria vida e me dar a real oportunidade de refletir e concluir sobre os assuntos sem medo e sem dogmas. Tirei a venda de meus olhos. Deixei-me ver as coisas como eram. E aí, tudo foi acontecendo…

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