Discípulo da razão é um blog para falar sobre a vida e sua falta de sentido. Sem rodeio. Sem frescura.
Atrás de sorrisos, abismos
out 31st

Não acredito no sorriso alheio. Não acredito na felicidade alheia.
Sorriso está mais para uma técnica social do que um atestado de prazer.
É algo fácil de improvisar e evitar questionamentos. Um sorriso aqui, outro ali, e as pessoas já se tornam ‘amigas’, confidentes umas das outras.
Conseguimos enganar até a nós mesmos. Ao tirar uma foto em que não esteja satisfeito, sorria para a câmera. Depois de alguns anos, ao olhar esta foto, será capaz de acreditar que aquele momento foi prazeroso.
Uma pessoa de sorriso fácil pode ter mais chance de cair na graça dos outros e ganhar credibilidade, porém o perigo mora atrás dos dentes expostos como cartão postal. A realidade não está na boca das pessoas, nem em sua forma nem no que sai dela.
Sonhos e expectativas
out 26th
Conversando com uma pessoa fui indagado com a seguinte questão:
“vc vive por viver? sem sonhos…sem expectativas?”
A pergunta foi superficialmente respondida quando fui questionado, mas tentarei explorá-la um pouco mais aqui.
Uma breve reflexão
Os sonhos das pessoas estão normalmente ligados a mudanças de vida que, ilusioriamente, proporcionarão satisfação plena. Mas quando um se concretiza outro já lhe vem à mente para tentar tapar o buraco da falta de sentido e mantê-las em atividade sempre atrás de algo.
O problema de enganar-se e ficar em busca de algo que mudará para sempre nossa condição dolorosa de viver, é subestimar os momentos do presente ao ponto de não perceber um instante que nos livre do tédio e nos dê prazer. Pensam tanto no futuro que o presente passa a valer menos do que já vale.
Após viver um momento que nem teve muita importância e passado muitos anos, olha-se para ele e pensa: “Como eu era feliz e nem sabia”. Conseguimos nos enganar ao ponto de sempre achar que foi melhor do que realmente foi e melhor do que hoje.
E quando olha-se para o futuro, pensa-se: “Ainda vou ser feliz”, ou ainda mais específico: “quando eu conseguir me aposentar e comprar a casa na praia, aí sim vou desfrutar da vida”.
Depois de aposentado e na rede da casa de praia, olha para trás e pensa: “já estou velho, devia ter aproveitado melhor minha juventude”.
Sempre olham em outras direções, nunca para o aqui e o agora. Olham para trás e a memória recria momentos mais saborosos do que foram. Olham para frente e imaginam momentos surreais. Olham para os lados e apressadamente deduzem que beltrano ou sicrano são felizes.
Tal felicidade está sempre onde não estamos.

Respondendo a pergunta
Vivo por viver, sem grandes ambições.
Me afasto da busca louca que muitos fazem atrás desta felicidade: como se de repente a vida mudasse e tudo ficasse colorido, bonitinho, satisfatório e prazeroso para sempre. Um fantasma que criaram para poder correrem atrás a vida inteira, nunca vendo-o e nem encontrando-o. Um esforço a mais sem qualquer recompensa.
Anseio coisas, porém tento manter ideias que podem ser realizadas em breve e com boa probabilidade, procurando deixar o resto em segundo plano.
Coisas que aplico no presente evitam preocupações que poderiam surgir sobre o futuro:
- Sustentação: evito financiamentos; tento pagar sempre com o que tenho ou em curto prazo.
- Saúde: busco manter a saúde, o necessário para conseguir evitar boa parte dos sofrimentos, sejam físicos ou psicológicos.
Sabendo que o mundo é cinza, não tento colori-lo e fantasiá-lo. Apenas busco aceitá-lo como cinza e tirar proveito disto.
O prazer obtido por algo esperado é fugaz. Assim que satisfazemos um desejo ou necessidade, o brilho daquilo passa, e o tédio nos faz a enxergar novamente a dor de viver. A sensação de euforia se perde num piscar de olhos e logo a realidade é escancarada em nossa cara. Por isto procuro aproveitar o momento enquanto dura sem esperar nada além disto.
Acordar e dormir em função de sonhos, de algo que pensamos que possa acontecer, só nos leva para longe do presente, como sonâmbulos, tomando atitudes sem consciência do momento.
A saída para suportar a vida é encontrar passatempos.
Se buscarmos o desapego total das coisas, o tédio nos esmaga, e a morte pode ser a melhor companhia.
Faço piada com este jogo sujo em que estamos metidos. Não tento me enganar e acreditar que ele seja outra coisa, com regras e premiações valiosas. Não espero nada em troca. O jogo está acontecendo, e não há qualquer árbitro preocupado com os pinos que se movem sobre o tabuleiro. Somos peões, andando de casa em casa, em direção à extinção.
Na maioria das vezes me divirto, dou risada, acho graça desta falta de sentido. Enquanto conseguir encarar assim, melhor pra mim.
No fundo não há muita escolha em como viver, cada um foi “programado” de um jeito.
A realidade está aí, sem firulas ou camaradagem, pouco se lixando para nós.
Falta de sociabilidade e Ócio
out 2nd
Meu nível de sociabilidade tem diminuído drasticamente. Há momentos e momentos, mas o brilho de boa parte das coisas estimadas socialmente já se foi.
Já ouvi falar que pareço um velho, pois acabo preferindo ficar em casa do que sair. Muitas vezes prefiro minha companhia do que a dos outros.
Após refletir sobre a comparação percebi que muitos velhos, por limitações físicas e cansaço de uma longa jornada, conseguem apreender a vida de maneira mais clara. Percebem que a vida não tem muito a oferecer, não se preocupa com ninguém, não faz sentido, e no fim leva a todos para debaixo da terra. Eles já não conseguem se iludir muito. Então, é quando podem pendurar as chuteiras e aceitar tudo isto sem se desgastar tentando mudar o mecanismo. Apreende-o e aceita-o. O fim da máquina está próximo. Não há motivos para lutar.
Quando jovens, todos lutam por ideais, procuram gastar sua energia em prol deles. Trabalho, escola, filhos, humanidade e assim vai. Alguns gastam todo seu tempo para tentar ganhar um pouco dele no fim da vida.
Uma forma de tentar dar sentido para tudo ou para tentar financiar uma felicidade futura, fantasia do além. Quando a velhice chega, percebe-se de maneira mais forte que a morte está por perto, então começam a deixar as preocupações de lado e se distrair com coisas mais simples.
Os mais jovens não se dão conta. Não precisam viver planejando algo que podem viver no presente. Basta pularem todo o estágio da corrida insana.
Esta foi minha opção: menos preocupação, menos correria, mais ócio, mais tranquilidade. Direto ao ponto, sem precisar de mais dinheiro ou de mais idade. As obrigações que tenho são as que considero necessárias para viver, evitar o tédio e ter algum prazer.
Não precisei de limitações físicas, nem muitos anos nesta jornada. Não precisei abandonar minha vida em busca de dinheiro e de posição social. Cheguei aqui com altas doses de reflexões.
Deixei as ambições de lado. Larguei as preocupações que não me levam a qualquer lugar. Não vejo utilidade em grande parte das conversas que ouço. Não vejo graça em muitos encontros sociais. Não me sinto à vontade com várias pessoas.
Pelo acaso fui equipado com doses de bom humor, que ainda recebo com boa frequência, o que facilita a minha interação social, quando necessária. O que não significa que desejo ter as obrigações sociais aceitas pela grande maioria ou viver em função da atenção dos outros.
Por este distanciamento já fui intitulado de anti-social.
Uma constatação de que tenho deixado de ser útil para os outros, o que é interessante, e talvez uma ponta de inveja ocorrida pelo desejo de tomarem as mesmas atitudes mas não se permitindo sem que a culpa social lhes sobrevenha.
Quem ainda consegue se iludir, correr atrás de sonhos e fantasias, acha o cúmulo meu estado de espírito, resultado da perda desta habilidade.
Tenho minhas maneiras de evitar o tédio e me fornecer doses de prazer, mas não me peçam para usar os mesmos meios já definidos por contratos sociais.
Tiro um grande sarro de toda esta piada sem graça que chamamos de vida.
Senso de produtividade
ago 24th

A mecânica da vida tenta nos fornecer um senso de produtividade, para assim conseguir máquinas pensantes que trabalhem a seu favor vinte e quatro horas por dia.
Aqueles que deixam este ideal tomar conta de suas mentes e não cumpre-o, sentem-se como empregados improdutivos e inúteis sempre que possuem um horário disponível em sua agenda.
O ócio torna-se algo a ser combatido. O dormir é encarado como perda de tempo. A preguiça desvirtua-os.
Esquecem-se que a vida leva a todos para o mesmo buraco. O salário é o mesmo, trabalhando ou não. Morte.
Correm pra lá e pra cá, sempre pensando no que fazer depois. Para nada. Em vão. O aqui e agora, único momento existente, torna-se secundário.
As atividades são planejadas para poderem ter sempre o que fazer, mostrar serviço a um patrão que não dá a mínima para o funcionário.
Ter tempo livre, seja para puro lazer ou um belo descanso, é perda de tempo. Contraditório assim.

