Discípulo da razão é um blog para falar sobre a vida e sua falta de sentido. Sem rodeio. Sem frescura.
Sonhos e expectativas
out 26th
Conversando com uma pessoa fui indagado com a seguinte questão:
“vc vive por viver? sem sonhos…sem expectativas?”
A pergunta foi superficialmente respondida quando fui questionado, mas tentarei explorá-la um pouco mais aqui.
Uma breve reflexão
Os sonhos das pessoas estão normalmente ligados a mudanças de vida que, ilusioriamente, proporcionarão satisfação plena. Mas quando um se concretiza outro já lhe vem à mente para tentar tapar o buraco da falta de sentido e mantê-las em atividade sempre atrás de algo.
O problema de enganar-se e ficar em busca de algo que mudará para sempre nossa condição dolorosa de viver, é subestimar os momentos do presente ao ponto de não perceber um instante que nos livre do tédio e nos dê prazer. Pensam tanto no futuro que o presente passa a valer menos do que já vale.
Após viver um momento que nem teve muita importância e passado muitos anos, olha-se para ele e pensa: “Como eu era feliz e nem sabia”. Conseguimos nos enganar ao ponto de sempre achar que foi melhor do que realmente foi e melhor do que hoje.
E quando olha-se para o futuro, pensa-se: “Ainda vou ser feliz”, ou ainda mais específico: “quando eu conseguir me aposentar e comprar a casa na praia, aí sim vou desfrutar da vida”.
Depois de aposentado e na rede da casa de praia, olha para trás e pensa: “já estou velho, devia ter aproveitado melhor minha juventude”.
Sempre olham em outras direções, nunca para o aqui e o agora. Olham para trás e a memória recria momentos mais saborosos do que foram. Olham para frente e imaginam momentos surreais. Olham para os lados e apressadamente deduzem que beltrano ou sicrano são felizes.
Tal felicidade está sempre onde não estamos.

Respondendo a pergunta
Vivo por viver, sem grandes ambições.
Me afasto da busca louca que muitos fazem atrás desta felicidade: como se de repente a vida mudasse e tudo ficasse colorido, bonitinho, satisfatório e prazeroso para sempre. Um fantasma que criaram para poder correrem atrás a vida inteira, nunca vendo-o e nem encontrando-o. Um esforço a mais sem qualquer recompensa.
Anseio coisas, porém tento manter ideias que podem ser realizadas em breve e com boa probabilidade, procurando deixar o resto em segundo plano.
Coisas que aplico no presente evitam preocupações que poderiam surgir sobre o futuro:
- Sustentação: evito financiamentos; tento pagar sempre com o que tenho ou em curto prazo.
- Saúde: busco manter a saúde, o necessário para conseguir evitar boa parte dos sofrimentos, sejam físicos ou psicológicos.
Sabendo que o mundo é cinza, não tento colori-lo e fantasiá-lo. Apenas busco aceitá-lo como cinza e tirar proveito disto.
O prazer obtido por algo esperado é fugaz. Assim que satisfazemos um desejo ou necessidade, o brilho daquilo passa, e o tédio nos faz a enxergar novamente a dor de viver. A sensação de euforia se perde num piscar de olhos e logo a realidade é escancarada em nossa cara. Por isto procuro aproveitar o momento enquanto dura sem esperar nada além disto.
Acordar e dormir em função de sonhos, de algo que pensamos que possa acontecer, só nos leva para longe do presente, como sonâmbulos, tomando atitudes sem consciência do momento.
A saída para suportar a vida é encontrar passatempos.
Se buscarmos o desapego total das coisas, o tédio nos esmaga, e a morte pode ser a melhor companhia.
Faço piada com este jogo sujo em que estamos metidos. Não tento me enganar e acreditar que ele seja outra coisa, com regras e premiações valiosas. Não espero nada em troca. O jogo está acontecendo, e não há qualquer árbitro preocupado com os pinos que se movem sobre o tabuleiro. Somos peões, andando de casa em casa, em direção à extinção.
Na maioria das vezes me divirto, dou risada, acho graça desta falta de sentido. Enquanto conseguir encarar assim, melhor pra mim.
No fundo não há muita escolha em como viver, cada um foi “programado” de um jeito.
A realidade está aí, sem firulas ou camaradagem, pouco se lixando para nós.
Comemoração de aniversário
mar 14th
É comum comemorarmos aniversário, seja recebendo um simples “parabéns” ou realizando festas.
Isto se deve por completarmos mais um ano respirando, vivo. Esta contagem de ano se inicia quando saímos do ventre de nossas mães.
Podem achar interessante: estou mais um ano vivo! Uhuuu!
Mas no fundo não vejo muito sentido. Qual o verdadeiro mérito que a pessoa tem por isto?
Podia comemorar todo dia então e viver uma eterna celebração.
Contudo, não é bem assim. Não vejo as pessoas fazendo isto.
Talvez, este dia de comemoração, seja um momento onde desligam-se da realidade e tentam pensar que tudo vai ser ou é diferente. Ou quem sabe seja um marco para refletir o ano que se passou e fazer planos para o futuro. Pode ser que isto seja interessante, mas momentos de reflexão podem vir a todo instante o que torna esta data indiferente às outras.
É bom lembrar que não sou contra comemorações de aniversário. Cada um sabe o que lhe dá prazer.
Particularmente não faço questão de fazer festa ou o que seja. Para mim é uma data como outra.
Quando eu era mais novo pedia aos meus pais para me dar o dinheiro que eles gastariam com o bolo e a festa para o meu aniversário. Eu usava do jeito que eu quisesse e ainda por cima não precisava ficar ajudando a limpar a casa depois que os convidados fossem embora.
Gosto de encontrar amigos, rir e festejar, mas isto pode acontecer a qualquer momento e eu posso escolher quando quero. Não é algo obrigatório.
O estranho são as ligações. A pessoa liga e diz: “Feliz aniversário fulano! Como vão as coisas?” mas no fundo não tem mais nada pra dizer. Se é uma pessoa próxima já sabe como vão as coisas, se é uma pessoa distante pode até querer saber um resumo da vida mas é provável que logo em seguida suma de novo e não faça diferença.
No dia do aniversário normalmente recebo alguns telefonemas dizendo “parabéns!” e mais algumas palavras, cada um tenta variar em suas frases, muitas vezes o assunto acaba em seguida e ficamos sem graça, e eu sem saber o que falar além de “obrigado”. Alguns tentam desenvolver algum assunto pra mostrar que tinha mais o que falar mas normalmente percebe-se que não tinha.
Eu ainda ligo para algumas pessoas da minha família pois sei que fazem questão e por gostar de agradá-las mas tento ser o mais breve possível: “Parabéns! Desejo felicidades e saúde”. Breve, objetivo. Pronto.
O amor que sinto pela pessoa não vai ser demonstrado em um único dia e em uma rápida parabenização. Isto é fácil de se fazer e ao mesmo tempo bobo.
Prefiro sentimentos nutridos durante toda uma caminhada, atitudes realizadas durante nosso convívio.
Por ser esquecido e não gravar muitas datas, raramente lembro quando é o aniversário de um amigo ou de uma pessoa da família que não conviva comigo. Acabo que não ligo mesmo.
Acontece de às vezes me ligarem e dizer: “Hoje é meu aniversário cara, vamos fazer um churrasco”. Aí eu digo: “Puxa, parabéns, vou tentar aparecer”.
Prazer em ler
fev 27th
Durante o namoro eu insistia com minha atual esposa a tentar ler livros para ‘ajudá-la’ a ser mais articulada, estruturar melhor suas opiniões, aumentar o vocabulário e blá blá blá. Pobre de mim que nem sou culto, apenas um curioso e metido a ler coisas de meu interesse. Ela admitia e era original: não gostava de ler.Até que conseguimos comprar um livro pelo qual ela começou a ler e se interessou. Um livro estilo comédia romântica. Leu ele todo e adorou.
Percebi que não adiantava forçar, mas disse que só compraria livros se ela realmente fosse ler.
Chato, eu fazia perguntas do tipo: e aí, acabou o livro? Porquê não lê em vez de assistir TV? Ou em vez de blá blá blá?
Passou-se o tempo, algumas outras raras leituras, e casamos. Durante o casamento já compramos alguns outros livros pra ela, acho que uns dois. Começou a ler e não conseguiu passar de alguns capítulos até então. Talvez não gostou muito, talvez não quer ler por enquanto. Não importa, o que importa é que ela só vai ler quando quiser e se quiser. Mais do que certa.
Ainda pouco consciente deste assunto, eu, até pouquíssimo tempo atrás tentava dar um empurrãozinho. Até por pensar no dinheiro ‘investido’ e no livro parado, esquecido. Gastar já é complicado, comprar e não ler então, realmente dói no bolso.
Me descobri um chato e inconveniente. Pra quê forçar um gosto meu para cima de outra pessoa?
A pessoa vai ler no dia que tiver vontade e ponto. Assim como vou ver TV quando eu quiser, vou jogar sinuca quando eu quiser. Tudo, se eu quiser. Se eu não gosto de algo, não adianta me forçarem, assim como não adianta eu perturbar e encher o saco de alguém.
As coisas são prazerosas para quem as consideram prazerosas. São importantes para quem as consideram importantes.
Vale a pena conferir o post do Alex, que acabou me motivando a escrever isto, falando sobre o Lobby da Leitura.

